Quem acompanha os números da bolsa e as cotações dos ativos financeiros não tem mais dúvidas: a crise internacional veio para ficar e seus reflexos serão sentidos inclusive no Brasil. Resta saber agora se as perdas enfrentadas pelos investidores ficarão restritas ao mercado financeiro ou cruzarão as portas da BM&F Bovespa em direção à chamada economia real.

Na análise de especialistas consultados pela Gazeta Mercantil existem boas e más notícias envolvendo a economia brasileira. A ruim é que o País realmente apresentará uma taxa de crescimento inferior no ano que vem. A boa é que essa desaceleração pouco ou nada tem a ver com a crise externa, e sim com o processo de aumento da taxa básica de juros (Selic) conduzido pelo Banco Central para conter a inflação. Os analistas destacam, no entanto, que existe, sim, uma chance de contágio da crise no desempenho da economia brasileira.

As exportações são as mais vulneráveis a uma piora das condições internacionais, segundo o economista Cristiano Souza, do Banco Real. “Uma redução do crescimento mundial pode diminuir tanto a quantidade quanto o valor dos produtos vendidos pelo País”, afirma. Nesse movimento, a evolução dos preços das commodities, responsáveis por 40% da pauta nacional de exportações, será fundamental para avaliar esse impacto, observa.

De todo modo, o fato de a economia brasileira ser relativamente fechada - as exportações respondem por apenas 14% do Produto Interno Bruto (PIB) - acaba limitando possíveis efeitos negativos, analisa Souza. Para o economista, a queda da bolsa por si só também não representa uma ameaça à atividade doméstica. “Ao contrário dos Estados Unidos, onde a cada US$ 100 de riqueza US$ 30 vêm de ações, no Brasil a riqueza das pessoas não depende da bolsa.” O Real projeta crescimento de 3,5% para o PIB brasileiro em 2009.

O economista Filipe Albert, da Tendências Consultoria, considera que a crise não deve reduzir o apetite dos bancos brasileiros em conceder crédito, o que também poderia contribuir para um desaquecimento da economia. “A falta de liquidez internacional prejudica, mas os bancos nacionais se encontram em uma posição muito saudável”, diz.


Mais preparado

De acordo com o consultor de análises econômicas do Banco Itaú, Joel Bogdanski, fica difícil fazer qualquer prognóstico sobre a economia brasileira “no olho do furacão” da crise. Por outro lado, ele afirma “sem medo de errar” que o Brasil está muito mais preparado hoje para enfrentar um possível agravamento das condições dos mercados internacionais. “O País está em uma situação em que pode esperar para ver o que vai acontecer”, diz Bogdanski, que atuou na implantação do sistema de metas de inflação quando esteve no BC.

Fonte: Gazeta Mercantil

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