Gentileza, o segredo da felicidade
Atitudes de carinho, respeito e atenção trazem mais
benefícios do que você imagina. Doçura e gentileza,
além de ajudar aos outros, nos deixam mais felizes e também
nos ajudam a viver mais.
Por Claire Buckis
Muito do que torna a vida mais difícil – uma batidinha
no carro, uma porta que alguém não segurou quando
você passou – se deve à falta de consideração.
Imagine só como seria o mundo se todos fossem um pouquinho
mais gentis. Ao tentarmos entrar numa rua movimentada, por exemplo,
alguém nos cede a passagem. No supermercado, você deixa
alguém apressado entrar na sua frente na fila do caixa. No
metrô lotado, você se levanta para dar lugar a quem
parece cansado.
Uma nova teoria, chamada “sobrevivência do mais gentil”,
diz que foi graças à gentileza que a espécie
humana prosperou. O professor Sam Bowles, do Instituto Santa Fé,
nos Estados Unidos, analisou sociedades antigas e verificou que
a gentileza era componente fundamental da sobrevivência das
comunidades. “Grupos com muitos altruístas tendem a
sobreviver”, diz ele. “Os altruístas cooperam
e contribuem para o bem-estar dos outros integrantes da comunidade.”
Isto quer dizer que temos em nós a capacidade de ajudar os
outros, principalmente os que nos são próximos, a
fim de garantir nossa sobrevivência.
Sobre gentileza: a doçura traz felicidade
A pesquisa demonstra que a gentileza também pode nos deixar
mais felizes. A professora Sonja Lyubomirsky, da Universidade da
Califórnia, pediu aos participantes de um estudo que praticassem
ações gentis durante dez semanas. Ela verificou que
a felicidade aumentou no período do estudo, embora houvesse
um senão: quem teve atitudes de gentileza variadas –
segurar a porta aberta para um estranho passar, lavar a louça
do colega de quarto – registrou nível bem mais alto
de felicidade, mesmo um mês depois do fim do estudo, do que
quem repetiu o mesmo ato várias vezes.
Não faz diferença em termos de felicidade se ajudamos
um ente querido ou um estranho, mas o resultado pode ser diferente.
“O ato pequeno e anônimo faz com que a gente se sinta
uma pessoa muito boa”, diz a professora Lyubomirsky. “Mas
um grande ato de gentileza feito a alguém que conhecemos
pode ter consequências sociais: podemos fazer um novo amigo
ou receber agradecimentos generosos.”
Assim, pagar um café para um estranho pode levantar o astral
por al¬gum tempo, mas auxiliar um vizinho idoso a fazer compras
talvez ajude a melhorar de fato um relacionamento.
Para ter saúde: altruísmo
A gentileza nos faz bem de outras maneiras. O professor Stephen
Post, autor de Why Good Things Happen to Good People (Por que coisas
boas acontecem a pessoas boas), examinou os indícios de que
ser gentil faz bem à saúde. Um estudo com 2.016 frequentadores
de igrejas verificou que os que ajudavam os outros regularmente
tinham mais saúde mental e menos depressão. Outros
estudos constataram que as pessoas solidárias têm menos
probabilidade de sofrer de doenças crônicas, e seu
sistema imunológico tende a ser melhor. “Existe uma
relação direta entre bem-estar, felicidade e saúde
nas pessoas gentis”, diz Post.
A gentileza talvez ajude a regular as emoções, o que
causa impacto positivo sobre a saúde. Se nosso instinto biológico
automático do tipo “lutar ou correr” ficar ativo
demais por causa do estresse, o sistema cardiovascular é
afetado e a imunidade do corpo enfraquece. “É difícil
ficar zangado, ressentido ou amedrontado quando se demonstra amor
altruísta pelos outros”, afirma Post.
Gentileza X Egoísmo
Mas nada do que foi dito aqui explica por que somos gentis quando
queremos ser. Rebecca Egan, 34 anos, fez um dos maiores sacrifícios
possíveis por alguém que amava: doou um rim ao pai,
de 57 anos. “Foi uma das decisões mais fáceis
que já tive de tomar”, revela. Foi um profundo ato
de gentileza, mas que ela sente que só faria por um ente
querido.
“Não sei por que, mas acho que não doaria um
rim a qualquer pessoa; provavelmente só pensaria em fazer
isso por um parente”, admite. “Ao mesmo tempo, doar
o rim ao meu pai ajudou outras pessoas, porque ele saiu da lista
de espera de doadores e alguém pôde ocupar o seu lugar.”
O pai de Rebecca talvez possa agradecer à genética
pela gentileza da filha. Um estudo de 2005 da Universidade Hebraica,
em Israel, descobriu um vínculo entre a bondade e o gene
que libera a dopamina, neurotransmissor que proporciona bem-estar.
A pesquisa de Alan Luks, publicada em 1991 no livro The Healing
Power of Doing Good (O poder curativo de fazer o bem), verificou
que as pessoas que tinham atitudes gentis descreviam ter uma sensação
física. Muitos disseram sentir-se mais cheios de energia,
mais calorosos, mais calmos e com mais amor-próprio, fenômeno
que ele cha¬ma de “a onda de ajudar”.
Alguns cientistas dizem que, como só somos altruístas
pelo bem do grupo e para sentir a descarga de dopamina, isso significa
que, na verdade, a gentileza é egoísta. “Talvez,
em algum nível, a maioria dos casos de altruísmo seja
em proveito próprio”, diz Bill Von Hipple, professor
de Psicologia da Universidade de Queensland.
“Que importância tem se a gentileza é egoísta?”,
pergunta a escritora Catherine Ryan Hyde. Seu livro Pay It Forward
(Pague depois) conta a história de um garoto angustiado que
decide começar a pagar todas as boas ações
que recebe praticando três boas ações a outras
pessoas. O livro se transformou em filme (no Brasil, o filme chama-se
Corrente do Bem) e provocou um movimento de gente dedicada ao bem
na vida real. A iniciativa ilustra como a gentileza pode ser verdadeiramente
altruísta: estranhos ajudam estranhos sem expectativa de
ganho pessoal.
Ryan Hyde diz que não importa o que motiva as pessoas a doar;
o que importa é que decidiram doar. “Se tanto quem
ajuda quanto quem é ajudado se sente bem, parece-me um exemplo
em que todos saem ganhando. Não há jeito errado de
fazer uma gentileza.”
A recompensa não pode ser dinheiro
A gentileza tem outra semelhança com a felicidade: não
pode ser comprada.
Segundo o professor Sam Bowles, os economistas costumam cometer
o erro de achar que todos são inerentemente egoístas
e que só fazem algo bom em troca de recompensa financeira
ou para evitar multas. Mas o relatório de Bowles publicado
em 2008 na revista Science mostra o contrário.
A pesquisa acompanhou seis creches que começaram a cobrar
multa dos pais que se atrasavam para buscar os filhos. Depois das
multas, a incidência de atraso dos pais duplicou. Um estudo
semelhante também verificou que a probabilidade de mulheres
doarem sangue é menor se forem pagas. Bowles acredita que
ficamos ressentidos com a ideia de que nossos princípios
possam ser comprados: preferimos fazer boas ações
de graça. “Ser gentil nos dá prazer”,
diz.
Ser gentil ou individualista é opção
de cada um.
Um dos sinônimos de bondade é humanidade. Em essência,
a bondade e a gentileza são o reconhecimento do fato de que
todos somos humanos, o reconhecimento de que estamos juntos.
“Muito do que faz a vida valer a pena depende de que pelo
menos alguns de nós sejamos altruístas de vez em quan¬do”,
diz Bowles. “Não podemos enfrentar problemas como a
mudança climática global, a disseminação
de doenças e a violência mundial apelando apenas para
o individualismo.”
A boa notícia é que é fácil aprender
a ser gentil. “Basta praticar mais atos de gentileza do que
estamos acostumados, e de forma regular; por exemplo: cinco atos
de gentileza toda segunda-feira”, diz Sonja Lyubomirsky.
A gentileza, portanto, é apenas uma questão de opção:
é uma atitude que adotamos e que pode fazer diferença,
ainda que pequena, na vida dos outros.
Diego Villaveces acredita que a gentileza tem de começar
por dentro.
“Às vezes afastamos os outros de nós para nos
sentirmos mais seguros, mas isso também nos isola do restante
do mundo”, diz ele. “Todas as grandes religiões
têm o amor como princípio universal. A gentileza leva
o amor a um nível mais terno e acessível, com o qual
a maioria se sente à vontade.
Fazer o bem aos outros é reconhecer que todos à nossa
volta são iguais a nós.”
Como ser gentil e altruísta
(Dicas do Diego Villaveces)
• Compre um saquinho de amendoim ou alguns bombons no supermercado
e os dê a um morador de rua.
• Visite um asilo de idosos e passe uma hora jogando cartas
com alguém que não recebe muitas visitas.
• Carregue a mala pesada de alguém que parece estar
se esforçando muito para arrastá-la.
• Compre raspadinhas e distribua-as de graça e inesperadamente.
• No metrô ou no ônibus, ofereça seu lugar
a outra pessoa, mesmo que seja alguém mais jovem ou em melhores
condições físicas que você.
• Prepare um jantar para um amigo que está passando
por dificuldades.
Crianças e gentileza
As crianças pequenas demonstram tendência para a gentileza
antes mesmo de desenvolver a linguagem, de acordo com um estudo
de 2006 publicado na revista Science. As crianças de 2 anos
pegam objetos que os adultos deixam cair no chão para devolvê-los,
mas só se a criança achar que o objeto não
foi jogado de propósito.
Você pode ensinar seus filhos a serem gentis começando
com o básico da educação:
• Lembre-os de dizer “por favor” e “obrigado”,
e dê o exemplo.
• Aumente o sentimento de empatia encorajando-os a entender
como os outros se sentem.
• Recompense a gentileza. Quando vir seu filho ajudando alguém,
elogie-o.
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